Anatomia do Vazio
Uma crônica sobre vazio emocional, luto e dependência emocional após as perdas da vida
Desde que meus pais morreram, em 2020 e 2021, quando comecei a entender melhor as perdas no caminho e o luto, descobri que nasci com uma espécie de vazio emocional, um defeito biológico: um órgão a mais. Não é tipo um apêndice, que não serve para quase nada, nem um baço ou uma vesícula, que têm lá suas funções, mas dos quais dá para viver sem. Ou ainda um dente extra, como os sisos, que são extraídos depois de uma longa evolução do Homo sapiens e ficaram obsoletos.
Meu órgão extra chama-se Vazio Supranumérico1. Fica na altura do peito, perto do coração, bem no meio do esterno. Ele é uma involução da nossa espécie. Às vezes é enorme, comprime o coração e me dá sensações horríveis. Em outras, se alimenta de alguma coisa que não passa pelo estômago e fica ali, semi-preenchido, me deixando esquecê-lo por um tempo.
O problema desse órgão tão particular é que ele tem vontade própria. Sabe as pessoas que agem pelo cérebro? E aquelas que seguem o coração? No meu caso, o Vazio fala alto, grita, disputa espaço com esses outros dois e guia decisões que são completamente repreendidas por eles.
E o pior é que ele funciona através de um mecanismo próximo a um ciclo vicioso. Ele faz uma merda, o cérebro reclama, o coração aperta e, ao invés de o Vazio se recolher ao seu estado de insignificância, tenta consertar fazendo uma merda pior ainda. No desespero por se encher, busca pessoas inadequadas, relações tóxicas, sexo casual, comida, remédios tarja-preta.
Na maioria das vezes dá errado. Parece que o outro sente o cheiro do meu Vazio inflamado e já se afasta. Mas nas raras situações em que ele é preenchido, dura algumas horas. É como o torpor de um droga, que leva ao êxtase por algum tempo, depois funciona como fuga e acaba virando dependência. Qualquer porcaria serve para tapar o buraco pelo mínimo de tempo necessário para achar outra tampa, depois outra, depois outra. E a dopamina gerada pelo preenchimento do meu órgão extra é cada vez menor.
Já consultei diversos médicos e o único tratamento para quem tem Vazio Supranumerário é terapia, autoconhecimento e a capacidade de ficar bem consigo mesmo em tempo integral. Viver a própris vida sem depender do outro, mas ser capaz de aproveitar a companhia dele sem ter uma recaída que te leve de volta à dependência.
Ainda não há casos de cura conhecida, especialmente quando o Vazio tem formato heterogêneo, contorno irregular, nódulos e cistos, e alta vascularização, como o meu. Mas a literatura de autoajuda dá esperança de uma sobrevida longa, com dor suportável e práticas holísticas para melhorar a qualidade de vida.
Indica a presença de uma estrutura em número excessivo (ex: dentes supernumerários, rim supernumerário).



Muito boa crônica!